Uma mãe caminhando com sua filha pela Teodoro Sampaio. Uma mulher acendendo um cigarro enquanto desce apressada a rua Augusta. Um homem esperando o ônibus em Jerusalém. Cada um deles, do seu jeito, tem um pouco de cigano.
A mãe caminha também apressada talvez para chegar ao trabalho, talvez para levar a menina, de calça suja, para a escola, talvez para voltarem juntas para a casa. Ela deve gastar algumas horas entre o trabalho, a casa e as tarefas de casa, como cuidar da filha. Carrega a menina pelo braço e uma fralda no ombro.
Uma outra mulher desde a rua Augusta, deixando pra trás a Avenida Paulista, coração pulsante da cidade. Lugar de encontros efêmeros, de pressa, de correria. Caminha sozinha, acompanhada apenas do cigarro que acende. Ele é o companheiro nas horas vazias, nos trechos de deslocamento entre um lugar e outro onde agora é proibido.
O terceiro, com uma mala, espera um ônibus. Talvez para visitar um parente que mora distante, talvez para passar uns dias em outra cidade, por lazer ou por trabalho. Espera ansioso? Preocupado?
As duas primeiras de costas, a segunda caminhando para a esquerda e ele, parado, olhando para a direita. Cada um nômade do seu jeito. Ele segura uma mala, ela uma menina e a outra um cigarro. São todos ciganos, em lugares públicos, de passagem, de transição.
Quanto tempo a cidade não rouba de uma pessoa em trânsito? Como cruzar a cidade, de um lado ao outro em pouco tempo? Porque vagar alguns anos pelo deserto sem lar? Para quê cruzar um oceano para ser escravo em outro país? Os grandes êxodos do passado ainda refletem nos pequenos êxodos cotidianos do presente e as imagens da vida de hoje refletem as sombras do passado.
