Na primeira foto, todos estáticos. A mulher observa no museu a famosa pintura de Velázquez. No quadro, todos observam a infanta Margarida ao centro. Os pais orgulhosos ao fundo, observam, do que parece ser outro quadro ou um espelho já desgastado pelo tempo, de onde podem ser observados também. É o olhar do olhar do olhar.
Na segunda foto, ninguém repara que está sendo observado. Ele anda de muleta, uma procura algo na bolsa e a outra mexe no celular. Desleixados, seguem com suas vidas. Passam apressados pela estação de metrô. Só nós observamos a foto e eles nem sabem disso.
Na terceira foto, composta com tanta leveza e quase que saída de um sonho, os dois caminham também sem perceber serem observados. Seus passos calmos se fundem à paisagem de pedras e o preto de seus cabelos e roupas faz o balanço necessário do contraste. É tão perfeita que também parece um quadro.
No quadro, todos posam, sabiam que seriam observados séculos depois. Posaram para a pintura que virou uma foto. Tinham a intenção concreta de serem observados. Já a mulher de costas, o pai e o filho e os três da foto do meio, nem se dão conta de serem observados através da lente da câmera e depois, por nós.
E no fim, no meio de tantos olhares e atenção contempladora, somos observados por Margarida. Enquanto pensamos que vemos tudo e roubamos, no bom sentido, um pouco de cada um deles, ela, com seu olhar de menina, atravessa os séculos e vem espiar um pouco de nós também. Roubamos sua falsa intimidade do quadro e ela repara bem o jeito com que olhamos para ele.
